E tenho dito e rindo dos carrancudos de plantão. Sábado passado, fim da aula matinal de teatro, Alzira e eu vamos almoçar, onde? Padaria do bairro, feijoada, oba! Nada disso, dietinha básica pós-carnaval. Para sair da rotina, uma padaria nova. Salão pequeno, lotado, vi uma mesa ao fundo, lá vamos. Cantinho apertado, empurrei a mesa para sentar-me e a garçonete sem nem cumprimentar diz, – Não precisa empurrar a mesa desse jeito. – Precisa sim, eu disse, fica mais fácil para eu me sentar. Pronto, bastou minha ação-resposta diferente pra ela fechar a cara e me passar o cardápio como se me entregasse um tijolo. E lá se foi a moça, zangada. Cada um com seus “pobrema”, pensei. O meu “pobrema” era o cardápio: feijoada, feijoada, fei-jo-a-da. Não, nada de feijoada. Frango grelhado, queijo minas e salada variada.
Levanto a mão para fazer o pedido. A mesma garçonete me olha e faz que não me viu. Olho para o lado e lá vêm outro garçon, todo atenção, sorriso no rosto, diz: – Boa tarde. Pois não, amigo? Fizemos o pedido e ele, – Para beber? Já tomaram suco de clorofila? É uma delícia e faz muito bem pra saúde. – Ótima sugestão, concordei. – Se precisar de algo é só me chamar, chefia. Meu nome é Reginaldo. Agradecemos. A partir daí passamos a reparar e comentar as diferenças na postura atendimento de Reginaldo e da garçonete. Ele, bom humor, simpatia, cortesia, ela eficiente, mas sem alegria. Lugar aprazível se tornava a padaria com o atendimento de Reginaldo. E claro, comida boa, preço bom. E ao sair o famoso “Volte sempre”, dito por quem? Por Reginaldo, finalizando o ótimo atendimento.
Sábado hoje, mesma cena de fim de aula de teatro, almoçar onde? Claro, padaria do Reginaldo. Prá nós ele já era o dono da padaria. Lá fomos. Lotado o lugar e cadê o Reginaldo? Não víamos. Não havia mesa e sentamos no balcão de frente para o balconista que espremia laranjas. Peço um suco de clorofila e Alzira pergunta. – Cadê o Reginaldo? Ao som do espremedor escutamos de dentro do balcão, – E aí, chefia? Beleza? Era o Reginaldo, que gentilmente se lembrava da gente e que naquele dia não atendia no salão. Gritei, – Por que te trancaram aí dentro hoje? Você devia estar aqui fora atendendo o povo. Reginaldo não ouve por causa do barulho do espremedor, mas o colega dele responde alto: – Melhor assim, pelo menos aqui dentro ele trabalha e para de brincadeira.
Caros leitores desta singela crônica cotidiana, minha pergunta reflexiva: até quando brincar e demonstrar genuína alegria será visto como irresponsabilidade no local de trabalho?
Lembro-me de velha frase usada pelas pessoas quando prestes a ficarem nervosas: “Pare com isso. Você está me tirando do sério!” Amigos, imploro: “Me tirem do sério”. Alegria é criatividade. Alegria é diferencial. Alegria contagia. Alegria, pedaço gostoso do nosso pão de cada dia. Falta de alegria pode ser sinal de inadequação e problemas. Nada contra a seriedade nos momentos de responsabilidade, mas a falta de alegria é um sintoma de que as coisas estão ficando “brabas”. E é aí que o bicho pega.
Salve Reginaldo, torne-se empreendedor e monte a sua própria padaria!